quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Nova York e a vida secreta das referências musicais

Em qualquer viagem saindo aqui de casa, a cultura pop não nos deixa passear em paz e domina nosso turismo. É a vida secreta das referências, como Rufatto intitula um de seus discos. E numa cidade como Nova York, é impossível ficar distante da música, da literatura, das artes visuais ou do cinema. Então seremos obrigados a pagar tributo e caminhar diante de alguns ícones - ou por onde alguns ícones caminharam.

Entre vários nomes importantes, a música nova-iorquina passa indiscutivelmente por Bob Dylan e Velvet Underground. Sim, eu sei que - cronologicamente - Billie Holiday, Miles Davis, Patti Smith, Ramones, Talking Heads, Sonic Youth e Strokes (e vários outros) também são vitais para a música da cidade (e do mundo), mas ficaremos poucos dias e é preciso fazer escolhas, então vamos exaltar quem a gente gosta e conhece mais. Portanto, limitaremos nosso turismo às obras de Bob Dylan e Lou Reed. O próximo a ser explorado nessa lista seria o Talking Heads de David Byrne (só pra constar).


GREENWICH VILLAGE, 1960-65, Bob Dylan

É certo que vamos passar pelo Greenwich Village (região entre os bairros West Village, Soho/Noho e Chelsea, lado West da Washington Square e Universidade de Nova York) e observar o quê resta da trajetória do monstro sagrado Bob Dylan.

Nesta região de Manhattan, surgiu no final dos anos 50 uma grande influência para Dylan, o movimento beat, um fenômeno (contra)cultural do pós-guerra que tinha como elementos principais a rejeição às normas recebidas e ao materialismo, além do interesse em alucinógenos, inovações de estilo, religião e libertação sexual. Em resumo, foi quando a liberdade que você tem hoje começou a pedir passagem.

Neste cenário, o folk de Bob Dylan, inspirado em Woody Guthrie, começou a ganhar certa reputação no primeiro álbum (1962), mas foi no segundo lançamento - o clássico The Freewhelin’ Bob Dylan (1963) - que ele começou a fazer o nome como cantor e compositor. Em meio a algumas canções líricas sobre o relacionamento com a namorada, várias músicas de protesto fizeram a fama do álbum, com destaque absoluto para o hino dos direitos civis, Blowin' in the Wind, uma das músicas mais bonitas de todos os tempos. Importante citar que neste bairro Bob Dylan posou com a namorada para a superclássica capa do The Freewhelin’, que pretendemos bancar os jacus e reproduzir (haha).


Dylan e Suze Rotolo no Greenwich Village


Em 1964, Dylan ainda lançou The Times They Are a-Chagin’ e Another Side Of Bob Dylan - neste último, as músicas de protesto perderam lugar para os relacionamentos -, até que em 1965, houve a famosa ruptura com o folk e a iniciação com o rock em Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited (influência da Invasão Britânica, sim ou com certeza?).

Eis alguns pontos turísticos da música no Greenwich Village:

- capa do The Freewheelin’ Bob Dylan (West 4th Street com Jones Street)
local da famosa foto onde Bob Dylan caminha abraçado com a namorada Suze Rotolo.


- Chelsea Hotel (222 W 23rd St)
local de hospedagem para figuras como Andy Warhol, Robert Crumb e Frida Kahlo (artes visuais), Leonard Cohen, Charles Bukowski e Jean-Paul Sartre (literatura), Stanley Kubrick, Ethan Hawke e Uma Thurman (cinema), Tom Waits, Dylan, Patti Smith, Iggy Pop, Edith Piaf, Jimi Hendrix, Sid Vicious, Ryan Adams e Madonna (música). E essa lista poderia ser muito maior! Pra citar referências brasileiras, até Raul Seixas esteve por lá durante o exílio. Outra referência famosa, foi no Chelsea que Nancy (mulher de Sid Vicious) foi encontrada morta.



- Washington Square Park (final da 5th Ave)
espaço público que pertence à área da Universidade de Nova York, é famoso por ter sido ponto de encontro dos cantores folk e beatnicks no pós-guerra, até que a prefeitura resolveu intervir com a exigência de licença para aglomerações. Depois de um tempo sem nunca conseguir tais liberações, resolveram protestar e houve confusão, mas hoje o local é um dos grandes centros de atividades culturais na cidade.


- The Gaslight Cafe, Cafe Wha? e The Kettle of Fish (MacDougal St altura da Minetta Lane)
apenas três dos vários cafés/bares localizados na MacDougal Street, ponto de encontro da boêmia nos anos 60 e palco dos primeiros shows de Bob Dylan. O Cafe Wha? foi o primeiro, no exato dia da chegada de Dylan em Nova York.



- The White Horse Tavern (567 Hudson St com W 11th St)
outro famoso ponto de encontro dos poetas beatnicks; onde o jovem Robert Zimmerman conheceu Dylan Thomas (o dono do bar) e tomou o nome que o tornou famoso. Até Jim Morrison já foi dono do bar.

- Friends Apartment Building (90 Bedford St at Grove St)
Prédio usado como fachada para o apartamento no seriado Friends (esse não é sobre música, mas como não ir? haha)


EAST VILLAGE, 1965-70, The Velvet Underground

Pois bem, continuando nossa tour centrada na cultura pop (na música, né), bem próximo do Greenwich Village, no outro lado da Washington Square/Universidade de Nova York, está o East Village, onde na segunda metade dos anos 60, durante a Invasão Britânica aos EUA (Beatles, The Who, Rolling Stones, David Bowie, Eric Clapton...), surgiu a banda mais influente da história da música americana (controvérsias?), o Velvet Underground.

Fruto da mente absolutamente vanguardista de Lou Reed (letras e melodias), John Cale (melodias) e Andy Warhol (financiador/produtor), o Velvet é um marco do rock, pois rompeu com toda a estética melódica da época e inovou ao tratar de assuntos controversos como sadomasoquismo, drogas, prostituição e até ocultismo em canções garageiras, sem roupagem popular. O álbum de estréia foi um fracasso comercial na época, mas a capa da banana é um clássico e o som e as letras são inspirações diretas para todas as bandas de rock a partir deste lançamento.



fextinha mutcho loka na The Factory de Warhol com Lou Reed e cia


Eis alguns pontos turísticos da música no East Village:

- The Factory (231 East 47th Street e 33 Union Square West)
foi um estúdio de arte fundado pelo artista Andy Warhol e, entre 1962 e 78, teve dois endereços nesta região. Warhol reunia estrelas pornô, toxicodependentes, travestis, músicos e pensadores livres para desenvolver fotos, filmes, músicas e criar um ambiente que fez do espaço uma lenda. Um reduto da arte e da loucura nova-iorquina.

- Max’s Kansas City (213 Park Avenue South)
um dos locais preferidos de Andy Warhol, berço do glam rock e um dos pilares para a explosão do punk rock, foi o primeiro local para shows do Velvet Underground. David Bowie, The Stooges (Iggy Pop), Patti Smith, Debbie Herry, Ramones fizeram fama com shows no primeiro endereço do bar, entre 1963 e 74
.


- CBGB (315 Bowery St)
o bar de rock mais famoso de Nova York. Aberto em 1973, está fechado hoje em dia. No começo só tocavam bandas de Country, Bluegrass e Blues, depois foi aberto ao punk rock e new wave. É conhecido como berço do punk nos EUA, com Ramones, Television, Patti Smith sendo considerados vanguardistas do gênero. Praticamente todas as bandas punk (e de gêneros derivados) do mundo inteiro tocaram no CGBG.



- Bowery Ballroom (6 Delancey St)
local famoso por ser palco da cena indie alt-rock atual, fruto do garage rock revival dos anos 2000, com Strokes, White Stripes, The Walkmen que, por sua vez, são frutos diretos do Velvet Underground.


Fontes:
http://en.wikipedia.org/wiki/Music_of_New_York_City
http://www.vulture.com/2014/03/100-years-of-new-york-music.html 
http://en.wikipedia.org/wiki/Greenwich_Village
http://screamyell.com.br/site/2010/11/09/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1/
http://www.interferenza.com/bcs/villagesights.htm
http://www.popspotsnyc.com/lou_reed_velvet_underground

♪♫ The Velvet Underground - Rock'n Roll (Despite all the amputations you know you could just go out / And dance to the rock 'n' roll station / It was alright) ♪♫