sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Urânia Waltz

Como fizemos durante grande parte da minha adolescência, acabou a novela e zapeamos os canais a procura de um filme pra ver antes de dormir. Nada na Sky, a alternativa foi "Inverno da Alma", no pendrive. Então play. Logo nas cenas iniciais, o refrão de "Missouri Waltz", na voz de Mariseth Disco. Meu pai soltou um "nossa, olha que bonito". E voltamos pro começo do filme algumas vezes pra ouvir os versos em inglês e reparar num discreto zunido de grilos ao fundo, quase um barulho de mato, acompanhando a voz da cantora no lugar dos instrumentos, casando perfeitamente com a imagem rural que aparecia na tela, numa amostra do potencial lírico do cinema. E, diante da realidade que nos encontrávamos, a cena tornou-se ainda mais forte, mais lírica, mais emotiva. E os dois marmanjos, negando o medo da doença e a comoção do momento, apenas contemplaram o som em silêncio.

No meu entendimento, o momento transcende a relação pai e filho e pode ser encarado, também, como uma ode à música e às tradições caipiras.

E na minha mania de colocar a cabeça no travesseiro e pensar na vida, vejo as três grandes paixões do meu pai num momento tão delicado e perturbador: a família, a música e a roça.

E meu mundo desaba. Que saudade, Deus. Hoje, quatro meses.

O Cristo em Urânia, por Marcos Pick.

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