terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Vontade de (tentar) escrever à la Bukowski

Era uma sexta-feira com o calor dos dias pós-carnaval. Ela me ligou convidando pra sair. Um novo encontro. Numa discotecagem, dessas que eu costumava fazer. Eu não sabia o quê responder. Não sabia o quê sentia, nem o quê queria, nem o quê ela queria. Na real, me parecia que ela estava afim do dj. Quase disse sim, mas declinei. Fiquei em casa ouvindo Smiths, nada de me prestar àquele jogo.

Ela ligou de novo. Banquei o difícil e resisti, disse que estava com preguiça, que era tarde, que queria ficar sozinho. Puro charme, eu queria ir e enfrentar. Correr e disputá-la - sempre fui muito competitivo. Fiquei em casa, balbuciando as agruras do Morrissey. Eis que recebi um sms, todo desafiador: você não é homem para vir até aqui.

Desliguei o som, coloquei a primeira roupa que achei, peguei o carro e sai. Reparei que estava indo pra decisão sem o melhor uniforme. F
oda-se, vencemos a copa de 58 vestidos de azul e essa minha camiseta verde surrada é total Enrique Iglesias. Me enchi de certezas. Liguei o player do carro, nunca deixo desligado. O Harvest Moon estava ali, esse velho sempre tem bons conselhos. Cheguei rápido, não era longe. Estacionei e entrei no bar. Ela levou um puta susto quando me viu, não esperava que eu aparecesse. Estava com uma saia curta, sentada no canto do bar, próxima da porta de entrada. Havia amigos e amigas na mesa. Apenas cumprimentei. Seco, curto. E ardiloso.

Fui pegar uma cerveja no bar. Cumprimentei uns amigos efusivamente. Quis me enganar que não estava ali por ela. Questão de auto-estima. Fiquei de papo ali no balcão. Duas cervejas, três, quatro. Notei que o dj estava em outra. Apaixonado, o rapaz era só lamúrias aos mais próximos. Ficou claro na minha cabeça. Se as ligações e o sms foram pra mim, não fazia sentido ela estar afim dele. Eu não tinha adversário. Cinco cervejas. Bebi rápido, pra ficar bêbado. Insegurança. Bebi de costas pra ela, queria bancar o durão, o desprendido. Armas do approach.

Pedi um gin and tonic e decidi que era hora de encará-la. Fiquei, ainda de costas, atento aos barulhos do bar. E virei, de repente. Ela me analisava. Cabeça, ombros, costas, quadril, pernas entre banco e balcão. Cuidava dos meus movimentos. Vi que era a hora do ataque. Fiquei de frente, de longe. Braços cruzados, conversando com outro bêbado e atento à ela. Os olhares se encontraram, se entrecortaram. Observei os pormenores: sensualíssima naquela saia rodada, o sapato de salto caiu como luva no visual. Linda. Ela percebeu. Notou que eu estava a admirá-la. Sabia que eu só estava ali por causa dela. Fez charme. Sorriu. Agradeceu com um gracejo. Não perdoei, parti pra cima. Eu estava afim. Pulsava. Queria ser Billy Ray em Son Of A Preacher Man. E fui sentar àquela mesa. Conversamos. Aquela voz fez o zunido das conversas alheias e do rock que saia dos auto-falantes um barulho de chuva sem trovoadas. O barulho do nosso passeio. Eu me tornava Billy Ray.

Let´s Rock! >>> Tom Waits - I Hope That I Don't Fall In Love With You
Well the music plays and you display your heart for me to see / I had a beer and now I hear you calling out for me / And I hope that I don't fall in love with you (...) Well the night does funny things inside a man / These old Tom-cat feelings you don't understand (...) And I hope that I don't fall in love with you (...)

Now it's closing time, the music's fading out /Last call for drinks, I'll have another stout. (...) /I search the place for your lost face, guess I'll have another round /And I think that I just fell in love with you.

4 comentários:

cris disse...

Tudo continua muito bem por aqui.
Abraços saudosos, sinvrigunha.

ramiro disse...

graaaaaaaaaaande Urânia...texto bacana. O gordo alcoolatra sempre purifica os dias de ressaca eternos...hehe
abs

juju disse...

sou eu sou eu

e eu que sou eu amo vc que é vc;**

Marcelo Urânia disse...

"cara, demais demais...inspirador hahaha!" Fernando Miotto, daqui http://twitter.com/fmiotto/status/13559475089

:)