quarta-feira, 12 de abril de 2006

American Splendor, versão tupiniquim.

Com um pouco mais de atenção ao cinema e aos quadrinhos, é fácil notar o fantástico Robert Crumb e suas ilustrações feitas a partir da inovadora história criada por Harvey Pekar, baseada na sua própria vida, comum, sem-graça e desenxabida como a de todos.

Pekar escreve sobre seu desajuste social e frustrações da vida de forma clara e honesta, idênticas às de qualquer ser humano. Descreve, por exemplo, a dificuldade em pegar a fila mais rápida em um supermercado. É o cotidiano comum do escritor que ganha vida nas mãos de Crumb.

Dona Edwiges, também conhecida como Vó do Marcelo, é a versão tupiniquim de American Splendor. É impressionante a falta de jeito para certas tarefas mundanas.

O raciocínio, as expressões caricatas e as frases desconcertantes emitidas por Vovó Edwiges remetem ao universo de Harvey Pekar inúmeras vezes. A grande diferença entre as duas figuras está na pureza das ações de minha querida vovó.

Atente ao exemplo seguinte, imaginem como uma história em quadrinhos ou então uma cena de filme. Só falta alguém para escrever melhor e um Robert Crumb para ilustrar minha Vó. (hahaha)

Leia:

Marcelo é um rapaz barbado, magro, alto e feio, mas um bom moço. Certa vez, num começo de noite, com os ombros arcados após um longo dia de labuta, sai de seu quarto e caminha, só de cueca, pelo confortável carpete da sala e adentra à cozinha afim de um belo copo de água gelado para afugentar o raro calor da capital paranaense. Vovó Edwiges observa atenta, como um alce sua presa, aos movimentos do jovem, sentada no sofá enquanto assiste (de rabo de olho) sua novela preferida.

Ao pisar na cozinha, Marcelo ouvi um berro e quase tem um ataque cardíaco:

- Marcelo!!! Pelo amor de Deus!!!

O grito de Vovó desperta a vizinhança num raio de sete quarteirões, ela está de pé, com os olhos arregalados, boca semi-aberta, com as mãos na cabeça e aparência gélida.

Marcelo retrocede seus passos em um piscar de olhos e, assustadíssimo e um tanto atrapalhado pelo calafrio, questiona Vovó sobre o motivo de todo aquele estardalhaço.

Vovó responde ainda em sobressalto:

- Não pisa nesse chão gelado com o pé descalço que você vai pegar um resfriado!


(publicação original no Estranho Caminho 1.0)

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