segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Dos abraços

Note, enquanto caminha, quão doce é o balanço de duas mãos abraçadas.
Perceba, na volúpia do beijo, quão singular é o abraço dos lábios.
Mas não crie a dúvida, como fiz, sobre qual o abraço mais prazeroso.

Afinal, qual o intuito da batida vã do coração senão ir de encontro àquele que pulsa no peito próximo?

(publicado originalmente no Estranho Caminho 1.0)

Let´s Rock! >>> Mutantes - Quem Tem Medo de Brincar de Amor

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Mirtão e o cachorrinho: amor no barracão da uva

Estávamos na época de colheita da uva itália. Então meu pai resolveu construir um galpão para que a fruta não fosse embalada sob o sol escaldante da região de Urânia. E, apesar de construí-lo em madeira, recorreu aos serviços de Mirtão, talvez o mais conhecido pedreiro da cidade.

Eu, apenas um moleque que corria pra lá e pra cá no aguardo dos cachos suculentos, rodeava meu pai e Mirtão durante a construção, atrapalhando-os a quase todo instante.

Depois de um dia inteiro de labuta ferrenha, meu pai e Mirtão, realizados, resolveram saborear uma cachacinha e um aperitivo qualquer para inaugurar o 'barracão da uva'.

Eis que aparece um cachorrinho sabe-deus-de-onde enquanto saboreávamos os quitutes. O Mirtão, por culpa de sua ligeira embriaguez, redescobre a afeição por cães esquecida na infância. E começa a acariciar o perebento.

De repente, não mais que de repente, Mirtão começa a rir tresloucadamente, aponta para seu pé e diz:

- Óia lá, Ninão! Óia lá, Marcelo! O cachorrim tá metendo nos meus dedos!

Isso mesmo que você está pensando, amigos.

Mirtão fornicava com o cachorro friccionando os dedos dos pés!
O cãozinho estava em alfa. Meu pai e eu, apesar de atônitos, gargalhávamos.

Ê, mundão véio sem portêra!, diria Inesita Barroso.

(texto originalmente publicado no Estranho Caminho 1.0)

Let´s Rock! >>> New Order - Love Vigilantes

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

before it´s late

Aos 26 anos pretendo contar com um bom dinheiro em conta. Ou seja, daqui três anos.

E aí, comprar uma casa? Comprar um carro melhor? Fazer uma pós em jornalismo e lutar pelos sonhos?

Não. Viajarei à Liverpool para conhecer o Cavern Club e trepar com uma inglesa pálida e peituda. Depois viajo para Viena e procuro uma francesinha a fim de viver um before sunset. Escrevo um livro e vou para Paris.

Aí sim, vou buscar o dinheiro investido em vida para construir uma vida.

Let's Rock! >>> Kath Bloom - Come Here

The boy with the thorn in hs side

Madrugada de sábado, boca seca após lamúrias e litros de álcool. A fechadura dribla meus dedos e a chave brinca com meu cérebro. Insisto e a cabeça roda junto à maçaneta. A porta abre, finalmente. O cheiro de cigarro nas roupas entorpece as flores e apodrece o ambiente.

Bêbado. Em mais uma tentativa frustrada de tirar você da minha cabeça, ao menos por alguns instantes. Marteladas, pontadas no peito. A dor da culpa somada ao sentimento que permanece à revelia da razão.

Acabei com a minha melhor amiga, minha amante, meu fetiche, minha musa. E quase acabo comigo ao tentar acabar com a saudade.

Por pouco não cometo outro erro: esquecer.

Let's Rock! >>> Wilco - I´m The Man Who Loves You
Let's Rock! >>> Chico Buarque - Embebedado [Embebedado de você. Tonto na beirada da tentação de cair e voar, até me aninhar em você, mal parado num muro sem prumo, em que estudo onde me equilibrar. (...) Sou a sobra do efeito cascata da vodca e desse luar.]

quarta-feira, 12 de abril de 2006

American Splendor, versão tupiniquim.

Com um pouco mais de atenção ao cinema e aos quadrinhos, é fácil notar o fantástico Robert Crumb e suas ilustrações feitas a partir da inovadora história criada por Harvey Pekar, baseada na sua própria vida, comum, sem-graça e desenxabida como a de todos.

Pekar escreve sobre seu desajuste social e frustrações da vida de forma clara e honesta, idênticas às de qualquer ser humano. Descreve, por exemplo, a dificuldade em pegar a fila mais rápida em um supermercado. É o cotidiano comum do escritor que ganha vida nas mãos de Crumb.

Dona Edwiges, também conhecida como Vó do Marcelo, é a versão tupiniquim de American Splendor. É impressionante a falta de jeito para certas tarefas mundanas.

O raciocínio, as expressões caricatas e as frases desconcertantes emitidas por Vovó Edwiges remetem ao universo de Harvey Pekar inúmeras vezes. A grande diferença entre as duas figuras está na pureza das ações de minha querida vovó.

Atente ao exemplo seguinte, imaginem como uma história em quadrinhos ou então uma cena de filme. Só falta alguém para escrever melhor e um Robert Crumb para ilustrar minha Vó. (hahaha)

Leia:

Marcelo é um rapaz barbado, magro, alto e feio, mas um bom moço. Certa vez, num começo de noite, com os ombros arcados após um longo dia de labuta, sai de seu quarto e caminha, só de cueca, pelo confortável carpete da sala e adentra à cozinha afim de um belo copo de água gelado para afugentar o raro calor da capital paranaense. Vovó Edwiges observa atenta, como um alce sua presa, aos movimentos do jovem, sentada no sofá enquanto assiste (de rabo de olho) sua novela preferida.

Ao pisar na cozinha, Marcelo ouvi um berro e quase tem um ataque cardíaco:

- Marcelo!!! Pelo amor de Deus!!!

O grito de Vovó desperta a vizinhança num raio de sete quarteirões, ela está de pé, com os olhos arregalados, boca semi-aberta, com as mãos na cabeça e aparência gélida.

Marcelo retrocede seus passos em um piscar de olhos e, assustadíssimo e um tanto atrapalhado pelo calafrio, questiona Vovó sobre o motivo de todo aquele estardalhaço.

Vovó responde ainda em sobressalto:

- Não pisa nesse chão gelado com o pé descalço que você vai pegar um resfriado!


(publicação original no Estranho Caminho 1.0)

Let´s Rock! >>> Chocolate Genius - Ain't That Peculiar